» » » » Pornografia feminista rejeita ideia do ‘corpo ideal’



Uma revista com o título “Math” (“matemática”) pode não chamar muita atenção. Mas quem se dispuser a folheá-la verá que nela se revezam imagens de nu conceitual e cenas bem eróticas. A fotógrafa americana MacKenzie Peck, idealizadora da publicação, faz parte do movimento de pornografia feminista, que defende um modo diferente de encarar a nudez. Sob suas lentes, não existe o corpo ideal. Mulheres de todas as formas, tamanhos e idades são sexy. Além desta nova ótica, também vale destacar outra mudança: a tradicional interpretação masculina sobre o erotismo não está mais no comando.
— A pornografia conhecida popularmente é uma indústria moribunda que está fora de contato. São narrativas opressivas e com estética desalentadora — critica MacKenzie. — Os meios de comunicação têm medo da mudança. Há uma miríade de desejos que são frequentemente procurados, mas quase nunca vistos, e que merecem atenção. Não estou vendendo uma fantasia inatingível, um mundo de sonhos em que ninguém é capaz de entrar.
Coordenadora do Observatório de Sexualidade e Política, Sonia Correa ressalta que a pornografia é dominada pelo “olhar embasbacado com o qual o homem vê o corpo da mulher”.
— O grosso da pornografia produzida no mundo é a retórica desse olhar masculino e seu controle sobre as mulheres — sublinha. — A pornografia feminista inverte esta lógica e não deixa traços de dominação e hierarquia, que às vezes descamba até para a violência. Agora, elas dominam seu prazer erótico.
MacKenzie, criadora e editora-chefe da ‘Math’ - Divulgação
Criadora da revista de arte erótica brasileira “Nin” (editora Guarda-Chuva), Letícia Gicovate acredita que o corpo nu ainda é um “tabu global”, e que naturalizá-lo é fundamental para discutir a sexualidade.
— Vivemos numa sociedade ainda muito reprimida em relação ao próprio corpo, o que dirá em relação ao corpo do outro — destaca Letícia, refutando a tese de que a nudez feminina é apenas uma exibição. — Posar nua pode ser uma forma de descoberta pessoal, autoafirmação, empoderamento. É importante que parta do desejo da mulher, sem a orientação restrita de agradar a um padrão masculino, ou a qualquer tipo de ordem estética, moral ou social.
Nascida na década de 1980 nos Estados Unidos, a pornografia feminista ganha território aos poucos no Brasil. Há, porém, resistências históricas.
— Infelizmente o preconceito cerca tudo que carrega o sobrenome “feminista” — lamenta Letícia. — O termo ainda sofre uma estigmatização equivocada e, como não é muito compreendido, tem seu alcance limitado. O pornô geralmente é criado por homens, mostra o sexo idealizado por eles e a mulher como um acessório caricato e obediente. Este modelo tradicional reflete uma situação que precisa ser modificada.
Coordenadora nacional da União Brasileira de Mulheres, Lúcia Helena Rincón teme o tratamento normalmente dispensado pelas publicações pornográficas ao público feminino. Como a sensualidade pode ser mal interpretada, Lúcia recomenda cautela na elaboração de qualquer tipo de revista erótica.
Revista traz modelos convocados na rua, e outros que procuraram editora pelas mídias sociais - Divulgação
— Em nossa cultura, o corpo feminino ainda é apresentado de uma forma muito passiva, e por isso está exposto a uma misoginia violenta, que pode até reforçar a cultura do estupro — alerta.
MacKenzie, porém, acredita que é possível criar uma “nova expressão sexual” sem ofender ninguém. Sua preferência é por ensaios que, embora provocantes, se afastam do que as pessoas costumam definir como pornográfico. Para os acostumados com o pornô convencional, a fotógrafa oferece o que acredita ser uma pornografia porta-voz da libertação pessoal.
A criadora da revista “Math” já começou a levar a sua publicação para as bancas americanas e recebe pedidos de leitores de outros países. Diante da crescente atenção, ela brinca com a possibilidade de sua pornografia outsider desbancar as revistas tradicionais:
— Será que o Hugh Hefner (fundador da revista “Playboy”) vai me dar um prêmio no dia em que isso acontecer? Gostaria de ampliar a escala do meu trabalho e incentivar mais debates. E também organizaria festas melhores do as dele.

O Globo 

Edson Pereira

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